A noite passada

Nós fora nada

Posted in Uncategorized by Maria da Luz on Janeiro 13, 2010

As palavras são perigosíssimas, Diogo. Sinceramente, até vivo bem dispensando todas as que não me servem para ajustar as contas. Passo sem palavras inúteis e voltas mal dadas – e se o mote for mais ou menos feliz, a volta pode ser mais leve que uma palavra bruta que depois de escrita é impossível devolver à virgindade inicial de partícula de dicionário. Em compensação, por estes dias, felicito-me mais com grunhidos, como são os risos alcoolizados, e a ternura dos bêbados emociona-me mais do que a frieza da escrita, a racionalidade justaposta, os rituais de contenção. Desejo uma escrita livre e sai-me disto. Censurada.

Palavra

Posted in Uncategorized by JPO on Janeiro 12, 2010

Eu, a inercia e tu, um menage atroz. Tanta correspondência em espera e nós nesta pouca vergonha despalavrada. Os dias perdidos desta orgia de silêncio. Eu, uma palavra só e tu, Maria da Luz. Inércia: resistência que a matéria oferece à aceleração; propriedade que possui uma substância de não reagir em contacto com outra; falta de reacção, de iniciativa; imobilismo, estagnação. Uma palavra só que eu tento exponenciar. Em vão. Multiplicar o quê, se nós fora nada? Milhares de postais esquecidos na posta restante. Tento escrever-te sobre a inércia mas a inércia não deixa. Abro o livro das palavras e nada. Lá está ela, entalada entre o inequívoco e a inerência. Inércia. Uma palavra só, uma palavra entre duas, as três entre tantas. Os dicionários são como o diabo dos supermercados, saímos dali sempre atafulhados com muito mais do que entrámos à procura. E olha, eu gosto de supermercados, Maria da Luz. Mas a gente perde-se ali dentro. São palavras que remetem para palavras, que se justificam por escrito, que dão alibis umas às outras num interminável jogo de sentidos em que própria palavra palavra se explica por outras palavras. É sempre uma palavra entre duas, as três entre tantas, e às duas por três e às tantas uma multidão de palavras cruzadas que se dizem umas às outras, todas elas querendo dizer o mesmo, sendo o mesmo ele mesmo só mais uma palavra que significa outra. Por mais que procures não encontrarás a palavra certa do que diz, segura de si, inequívoca e absoluta, com os fonemas no sítio, capaz de dizer que quer dizer apenas e precisamente aquilo que diz quando dá com a língua nos dentes e nada mais. Se até os substantivos, palavras que se julgam coisas, se servem de outras palavras. Sem nós toda a palavra é vã, Maria da Luz. Elas são o signo. O significado somos nós. Sem nós, inércia quer dizer nada.

Post das perguntas by a noite passada (work in progress)

Posted in Uncategorized by Maria da Luz on Dezembro 28, 2009

Porque choveu em cima do Corto Maltese na Sibéria e a audácia da esperança do Obama safou-se? Porque sonhei com uma aventura na selva a seguir ao Cavaco epiléptico? Porque acabam os cigarros em noites de temporal? Quantos graus acima de 15 tem Dezembro? Porque é que a ingenuidade é bruta?

Pipis

Posted in Uncategorized by JPO on Dezembro 7, 2009

“Janica, coisa mai linda, bel môce”. Não oiço outra coisa. É como um eco que teima em não desmaiar para o silêncio. Uma e outra vez este arquivo reverberado de piropos e chamegos, sorrisos e guinchos e ameaças constantes de uma estrafega de mimos. Chamávamos-lhe Pipis, os sobrinhos. Tia Pipis. Ninguém mais lhe chamava assim. Não sei porquê, nunca me importou saber. Não é que Maria Albertina fosse nome sem graça. Mas foi sempre assim que a conheci e Pipis era o nome perfeito para aquela figura algarvia de peito farto, o cabelo moreno armado como um esfregão bravo, a maquilhagem de uma extravagância castelhana e aqueles olhos sempre semicerrados pela força de um riso incontinente. “Ai que eu mijo-me, ai que eu mijo-me” Não me sobra outra coisa na peneira da memória. Garimpo até ao canto mais esconso da minha infância, esgravato os álbuns de família, os dias de festa e de tragédia, o açúcar das férias perfeitas e o bolor dos invernos ressentidos. Nada. Apenas a algarviada de afectos e o escangalho de rir. “Janica, coisa mai linda, bel môce. Ai que eu mijo-me, ai que eu mijo-me.” Não a consegui chorar à despedida. Engasguei-me quando o cortejo passou à campa do meu pai, abracei a perda resignada da minha mãe, comovi-me com o desnorte do meu tio que aprende a dormir sozinho 50 anos depois. Mas não a consegui chorar. Não me fez sentido carpir a lembrança de um riso. Confesso até que me apeteceu aplaudir, mas guardei-me do despropósito. Só mais tarde me desmoronei, em frente ao espelho, revendo-me nesta coisa pouca de infelicidade que me traz sisudo e grave, sempre com os cornos a riscar o soalho. Só mais tarde chorei, de saudade e inveja. Consegues imaginar melhor que isto, Maria da Luz? Ser uma memória gargalhada, uma ideia de felicidade na cabeça dos outros. Como quem diz: foi um prazer, até mais ver, agora amortalhem-me e fumem-me.

Lamúria

Posted in Uncategorized by Maria da Luz on Dezembro 1, 2009

Os outros largas avenidas, eu nem uma canada. Ao menos que fosse uma quelha – como a quelha dos abraços, perpendicular à rua da Bandeira, líquido amniótico. Nem isso.

Muitos anos a virar frangos

Posted in Uncategorized by Maria da Luz on Novembro 26, 2009

A intuição feminina não existe: é uma treta inventada por machos manipuladores. A única evidência científica é a intuição do churrasqueiro. Muitos anos a virar frangos valem meia biblioteca de Alexandria, 3/4 dos arquivos do FBI e a série inteirinha dos ficheiros secretos. Os ensinamentos da churrascaria são básicos e exemplares, porque não há nada de extraordinário na maior parte das coisas: há a grelha, há o pito, há o carvão. A ordem dos factores não é arbitrária.

Tudo e mais um par de botas

Posted in Uncategorized by JPO on Novembro 16, 2009

Pôs-se a andar e deixou as botas para trás. Vermelhas, extravagantes, atrás da porta. Não há dia que não me sinta pisado por aquele abandono de bota largada. Um invólucro vazio, esquecido do desejo que estoirou, saiu disparado rua abaixo e fez a promessa certeira de não pôr cá mais os pés. Nada mais que um par de botas e agora pede-as de volta. E eu a lamentar que elas não saibam ir sozinhas, por seu pé, desandar no encalço dos passos que lhe deram a forma e o jeito. O caminho não tem que enganar: é o de tudo o que foi para chegar a parte alguma. Basta seguir o eco do bota-abaixo da despedida, calcorrear a vereda dos cacos desse dia em que o amor bateu a bota, ela bateu a porta e eu bati o pé. Soubesse eu dar corda aos sapatos e punha-os a andar. E é aqui, Maria da Luz, que nos desencontramos. Tu de regresso a alguma coisa, eu a fugir de tudo e mais um par de botas.

Retiro

Posted in Uncategorized by Maria da Luz on Novembro 12, 2009

É como se tivesse descoberto alguma “verdade” e ela estivesse aqui ao pé, mesmo dentro de casa. Já me suporto: isto é tão recente que ainda estou na fase da surpresa. A barraca em que vivo, com os baldes de tintas que me vais ajudar a carregar escadas acima, Diogo, vai ficar cosy. Ando na fase do onanismo soft, mas nenhuma Marta Crawford se arrisca a pregar a menoridade intrínseca aos prazeres masturbatórios. Apetecem-me quatro ou cinco pessoas e alto lá. Tenho ali o Sunday Times à beira da cama (com três dias) e não o trocava pelo Gianechini ou lá como se escreve o raio do nome do brasileiro ex-Marília Gabriela. Deves pensar que isto não é muito saudável, Diogo, mas como me dá vontade de rir, acho óptimo.

O triunfo da vara

Posted in Uncategorized by JPO on Novembro 5, 2009

A pergunta não me sai da cabeça. Quantos anos tem Novembro? Foi o Neruda quem perguntou, mas ele bem sabia que ser poeta é isso, semear a palavra que outros hão de colher e fazer sua. Desde que a li que a pergunta se fez minha. Quantos anos tem Novembro? Quanto tempo mais no lugar deste Outono? Recolhido, encolhido, acocorado, pequenino. Não consigo evitar, Maria da Luz. Tudo quanto a vista alcança me amesquinha. Por toda a parte parece que só vejo gente grande, gente que se faz grande, gente maior que a gente, gente que mete a gente no bolso. E eu invejo o talento e a inteligência e a habilidade, os pés com toque de bola, as mãos que não precisam de emenda, os peitos inchados a pedir comenda, os erros desavergonhados, os crimes louvados, os esquemas engendrados, os apetites desenfreados, os sonhos desembestados, os palcos iluminados, as obras colossais, a ambição e o querer mais e mais e mais, a ganância até, Maria da Luz. Invejo tudo o que é grande, maior que estas dores pequenas e coitadinhas de trazer por casa de duas assoalhadas. Invejo as tragédias com sentido. Invejo os que prefixam o verbo, os que prevêem, pressentem, predizem, pretendem, os que chegam primeiro e mais longe e conseguem garimpar fortunas num monte de sucata. Invejo a inveja de quem sabe o que quer. Enganei-me tempo demais, Maria da Luz. Não somos todos iguais nesta pequenez. Há uns mais iguais que os outros, que fazem e se sentem maiores, que nos convencem. E o tempo é deles. O triunfo é deles. Sempre foi. Por isso te digo que chega. Chega de divagar sobre os quês e os porquês, chega de matutar nestas dorzinhas, chega de catar poesia no desassossego. Que a divagar não se vai ao longe, que dorzinhas é diminutivo de gente pequena, que o desassossego é só uma equação química mal resolvida. Nada mais. E o resto é tudo o que pode haver. O resto é fazer. Fazer pela vida, fazer acontecer, fazer a diferença. Endireitar as costas e pensar grande. Se ao menos soubesse por onde começar, Maria da Luz. Se ao menos Novembro acabasse.

Tinta permanente

Posted in Uncategorized by JPO on Novembro 2, 2009

A noite passada em branco. Por que diabo se diz que passa em branco uma noite perdida na vigília da escuridão, não sei. Nunca tinha pensado nisso. Talvez porque o branco não é ausência de cor, mas a soma centrifugada de todas elas, e ninguém se desencontra do sono por ter a cabeça vazia. Agora que penso nisso, não há cor mais berrante que esse branco das noites em claro. O insuportável ruído do branco que nos satura horas a fio num desgoverno de ideias. A noite passada foi assim. A noite que tinha passado, também. Depois o dia clareou e eu escureci com ele, e lá venho seguindo, ensimesmado, em-mimesmado, coitadinho dele, de mim, curvado, detestavelmente curvado, feito num oito que não sai de si, torcido ao meio, o nariz enfiado no próprio cu – porra que não há quem ature isto. E tudo isto para te dizer, Maria da Luz, que temo bem não ser a pessoa indicada para te ajudar a carregar tintas. É que não há cor que se veja sem luz e reflexão, e então de que te posso valer eu, que desboto sem graça neste preto e branco dos dias em negativo? Não é que me estejas nas tintas, entende-me. Sabes que nos une uma tinta permanente. E se de alguma coisa te servir, aqui estou eu para te ajudar a carregar baldes e esticar papel de casa de putas paredes acima, trepar escadas de psiché às costas, arredar quantas mobílias me pedires. E mentir-te até, se precisares de acreditar que essa peruca te fica bem.