A noite passada

Palavra

Publicado em Uncategorized por JPO, em Janeiro 12, 2010

Eu, a inercia e tu, um menage atroz. Tanta correspondência em espera e nós nesta pouca vergonha despalavrada. Os dias perdidos desta orgia de silêncio. Eu, uma palavra só e tu, Maria da Luz. Inércia: resistência que a matéria oferece à aceleração; propriedade que possui uma substância de não reagir em contacto com outra; falta de reacção, de iniciativa; imobilismo, estagnação. Uma palavra só que eu tento exponenciar. Em vão. Multiplicar o quê, se nós fora nada? Milhares de postais esquecidos na posta restante. Tento escrever-te sobre a inércia mas a inércia não deixa. Abro o livro das palavras e nada. Lá está ela, entalada entre o inequívoco e a inerência. Inércia. Uma palavra só, uma palavra entre duas, as três entre tantas. Os dicionários são como o diabo dos supermercados, saímos dali sempre atafulhados com muito mais do que entrámos à procura. E olha, eu gosto de supermercados, Maria da Luz. Mas a gente perde-se ali dentro. São palavras que remetem para palavras, que se justificam por escrito, que dão alibis umas às outras num interminável jogo de sentidos em que própria palavra palavra se explica por outras palavras. É sempre uma palavra entre duas, as três entre tantas, e às duas por três e às tantas uma multidão de palavras cruzadas que se dizem umas às outras, todas elas querendo dizer o mesmo, sendo o mesmo ele mesmo só mais uma palavra que significa outra. Por mais que procures não encontrarás a palavra certa do que diz, segura de si, inequívoca e absoluta, com os fonemas no sítio, capaz de dizer que quer dizer apenas e precisamente aquilo que diz quando dá com a língua nos dentes e nada mais. Se até os substantivos, palavras que se julgam coisas, se servem de outras palavras. Sem nós toda a palavra é vã, Maria da Luz. Elas são o signo. O significado somos nós. Sem nós, inércia quer dizer nada.

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