Pipis
“Janica, coisa mai linda, bel môce”. Não oiço outra coisa. É como um eco que teima em não desmaiar para o silêncio. Uma e outra vez este arquivo reverberado de piropos e chamegos, sorrisos e guinchos e ameaças constantes de uma estrafega de mimos. Chamávamos-lhe Pipis, os sobrinhos. Tia Pipis. Ninguém mais lhe chamava assim. Não sei porquê, nunca me importou saber. Não é que Maria Albertina fosse nome sem graça. Mas foi sempre assim que a conheci e Pipis era o nome perfeito para aquela figura algarvia de peito farto, o cabelo moreno armado como um esfregão bravo, a maquilhagem de uma extravagância castelhana e aqueles olhos sempre semicerrados pela força de um riso incontinente. “Ai que eu mijo-me, ai que eu mijo-me” Não me sobra outra coisa na peneira da memória. Garimpo até ao canto mais esconso da minha infância, esgravato os álbuns de família, os dias de festa e de tragédia, o açúcar das férias perfeitas e o bolor dos invernos ressentidos. Nada. Apenas a algarviada de afectos e o escangalho de rir. “Janica, coisa mai linda, bel môce. Ai que eu mijo-me, ai que eu mijo-me.” Não a consegui chorar à despedida. Engasguei-me quando o cortejo passou à campa do meu pai, abracei a perda resignada da minha mãe, comovi-me com o desnorte do meu tio que aprende a dormir sozinho 50 anos depois. Mas não a consegui chorar. Não me fez sentido carpir a lembrança de um riso. Confesso até que me apeteceu aplaudir, mas guardei-me do despropósito. Só mais tarde me desmoronei, em frente ao espelho, revendo-me nesta coisa pouca de infelicidade que me traz sisudo e grave, sempre com os cornos a riscar o soalho. Só mais tarde chorei, de saudade e inveja. Consegues imaginar melhor que isto, Maria da Luz? Ser uma memória gargalhada, uma ideia de felicidade na cabeça dos outros. Como quem diz: foi um prazer, até mais ver, agora amortalhem-me e fumem-me.
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