Tudo e mais um par de botas
Pôs-se a andar e deixou as botas para trás. Vermelhas, extravagantes, atrás da porta. Não há dia que não me sinta pisado por aquele abandono de bota largada. Um invólucro vazio, esquecido do desejo que estoirou, saiu disparado rua abaixo e fez a promessa certeira de não pôr cá mais os pés. Nada mais que um par de botas e agora pede-as de volta. E eu a lamentar que elas não saibam ir sozinhas, por seu pé, desandar no encalço dos passos que lhe deram a forma e o jeito. O caminho não tem que enganar: é o de tudo o que foi para chegar a parte alguma. Basta seguir o eco do bota-abaixo da despedida, calcorrear a vereda dos cacos desse dia em que o amor bateu a bota, ela bateu a porta e eu bati o pé. Soubesse eu dar corda aos sapatos e punha-os a andar. E é aqui, Maria da Luz, que nos desencontramos. Tu de regresso a alguma coisa, eu a fugir de tudo e mais um par de botas.
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