A noite passada

O triunfo da vara

Publicado em Uncategorized por JPO, em Novembro 5, 2009

A pergunta não me sai da cabeça. Quantos anos tem Novembro? Foi o Neruda quem perguntou, mas ele bem sabia que ser poeta é isso, semear a palavra que outros hão de colher e fazer sua. Desde que a li que a pergunta se fez minha. Quantos anos tem Novembro? Quanto tempo mais no lugar deste Outono? Recolhido, encolhido, acocorado, pequenino. Não consigo evitar, Maria da Luz. Tudo quanto a vista alcança me amesquinha. Por toda a parte parece que só vejo gente grande, gente que se faz grande, gente maior que a gente, gente que mete a gente no bolso. E eu invejo o talento e a inteligência e a habilidade, os pés com toque de bola, as mãos que não precisam de emenda, os peitos inchados a pedir comenda, os erros desavergonhados, os crimes louvados, os esquemas engendrados, os apetites desenfreados, os sonhos desembestados, os palcos iluminados, as obras colossais, a ambição e o querer mais e mais e mais, a ganância até, Maria da Luz. Invejo tudo o que é grande, maior que estas dores pequenas e coitadinhas de trazer por casa de duas assoalhadas. Invejo as tragédias com sentido. Invejo os que prefixam o verbo, os que prevêem, pressentem, predizem, pretendem, os que chegam primeiro e mais longe e conseguem garimpar fortunas num monte de sucata. Invejo a inveja de quem sabe o que quer. Enganei-me tempo demais, Maria da Luz. Não somos todos iguais nesta pequenez. Há uns mais iguais que os outros, que fazem e se sentem maiores, que nos convencem. E o tempo é deles. O triunfo é deles. Sempre foi. Por isso te digo que chega. Chega de divagar sobre os quês e os porquês, chega de matutar nestas dorzinhas, chega de catar poesia no desassossego. Que a divagar não se vai ao longe, que dorzinhas é diminutivo de gente pequena, que o desassossego é só uma equação química mal resolvida. Nada mais. E o resto é tudo o que pode haver. O resto é fazer. Fazer pela vida, fazer acontecer, fazer a diferença. Endireitar as costas e pensar grande. Se ao menos soubesse por onde começar, Maria da Luz. Se ao menos Novembro acabasse.

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